Você provavelmente tem músicas para diferentes momentos da vida. Um ajuda você a fazer um treino. Outro faz desaparecer uma longa viagem. Um terço é reservado para os dias em que nada mais parece ajudar.
Tendemos a pensar que a própria música é o que cria esses sentimentos.
Mas nossas músicas favoritas muitas vezes se recusam a se encaixar em uma única emoção. A mesma trilha pode nos deixar confortados e com o coração partido, nostálgicos e esperançosos, tudo ao mesmo tempo.
Um novo estudo sugere que isso ocorre porque a experiência emocional depende menos da música em si do que do motivo pelo qual escolhemos tocá-la.
Olhando além da música
Durante anos, os pesquisadores entregaram às pessoas uma lista e pediram que nomeassem aquele que sentia que uma música despertava. É feliz ou triste? Calmo ou tenso?
A configuração perdeu a realidade de como as pessoas ouvem música.
Uma equipa de investigadores liderada por Margarida Baltazar, da Universidade de Jyväskylä, decidiu medir a complexidade emocional. Esta é a experiência de se sentir bem e mal ao mesmo tempo, como alegria mesclada com tristeza.
“Queríamos obter uma imagem mais completa das experiências das pessoas com a música”, disse Baltazar.
O objetivo era a amplitude em vez da limpeza, o que significava deixar uma única música transmitir alegria e tristeza ao mesmo tempo.
Essas emoções confusas são mais comuns do que as pesquisas antigas deixam transparecer. Uma música que você ama pode trazer conforto e dor ao mesmo tempo, o tipo de sentimento que uma única caixa de seleção nunca iria capturar.
Medindo emoções musicais
A equipe reuniu respostas de mais de 2.100 pessoas em 84 países, abrangendo idiomas, idades e mundos musicais muito diferentes.
Cada pessoa escolheu uma música que tivesse um significado real para ela.
Depois vieram as classificações. Nessa faixa, eles marcaram o quão fortemente ela despertava o amor, a felicidade e a calma, ao lado da tristeza, da dor e da solidão. A mesma música pode ter pontuação alta em ambos, ao mesmo tempo.
Além da música em si, a pesquisa registrou quantas vezes as pessoas se apoiavam na música, seja para reviver memórias antigas, para acalmar o mau humor ou para construir uma noção de quem elas são. Também capturou personalidade e visão de vida.
Como ouvir muda as emoções
Um padrão se destacou acima dos demais. O sinal mais forte não foi a música ou mesmo o humor do ouvinte naquele dia. Foi a razão pela qual alguém procurou a música em primeiro lugar.
Quando as pessoas usaram uma música para vivenciar plenamente suas emoções, reviver memórias pessoais ou expressar quem são, os sentimentos emaranhados apareceram com mais frequência, como observaram os pesquisadores.
Esses usos puxam a pessoa para dentro, em direção ao significado, e não ao controle do humor.
O oposto vale para a autorregulação, o hábito de usar a música para corrigir ou estabilizar o que você sente. Procure uma música para se acalmar ou superar uma crise, e a recompensa emocional permanecerá mais simples.
Essa divisão revela algo que as pesquisas antigas deixaram passar durante anos. A música escolhida para controlar um sentimento o restringe. Em vez disso, apoie-se em um e ele se abrirá. O uso, e não a playlist, parece definir o alcance emocional.
Quem sente a música mais profundamente
A idade fez uma diferença clara. Os ouvintes mais jovens relataram os mais ricos emaranhados de sentimentos, e o efeito desapareceu gradualmente à medida que as pessoas envelheciam.
Algo sobre a juventude, ou sobre como os mais jovens usam a música, mantém vivas as contradições.
A personalidade divide os ouvintes da mesma maneira. Pessoas cujos sentimentos são fortes e mudam rapidamente, juntamente com aqueles que preferem a espontaneidade à rotina, relataram emoções mais confusas.
Pessoas mais estáveis e organizadas relataram menos emoções. Um estudo de canções nostálgicas revelou um padrão semelhante.
Nada disso significa que pessoas mais velhas ou mais calmas gostem menos de música. Eles apenas tendem a pousar em sentimentos mais limpos – uma emoção clara em vez de várias em guerra.
A maior variedade aparece entre os ouvintes mais jovens e os emocionalmente inquietos.
Os estilos de audição são mais importantes
De onde as pessoas vieram coloriu a imagem também. Não da maneira óbvia, no entanto.
Uma orientação cultural competitiva e voltada para a realização, que valoriza a independência, o sucesso pessoal e a ideia de que alguns saem na frente, foi associada a emoções mais confusas.
Esse vínculo cultural não agiu por si só – pelo menos não diretamente. Tudo girava em torno de como essas pessoas usavam a música, apoiando-se nas canções para reviver memórias e vivenciar plenamente suas emoções.
Uma vez contabilizados esses hábitos, o efeito cultural desapareceu completamente.
A diferença entre culturas não tem nada a ver com cultura, mas sim com estilos de audição – uma descoberta que se enquadra numa investigação mais ampla sobre cultura e sentimento musical.
“Esses indivíduos eram mais propensos a usar a música para expressar sua identidade, trazer de volta memórias pessoais e vivenciar plenamente as emoções da música, o que por sua vez pode levar a experiências emocionais mais ricas e complexas”, disse Baltazar.
Repensando a música e as emoções
O que chama a atenção é que a forma como você usa uma música, mais do que a música em si, muitas vezes altera o equilíbrio entre um sentimento e muitos. Isso inverte a velha suposição de que a música simplesmente transmite uma emoção a um ouvinte passivo.
Oportunidades práticas se abrem a partir daqui. Os musicoterapeutas poderiam adaptar as sessões de acordo com o propósito, uma vez que uma canção para o luto funciona de maneira diferente daquela destinada a melhorar o humor.
Os serviços de streaming podem pensar menos no gênero e mais no motivo pelo qual as pessoas pressionam o play.
Os pesquisadores também podem investigar como as letras, a melodia e as memórias pessoais se combinam para deixar alguém feliz e com saudades de casa ao mesmo tempo.
A era da emoção musical da caixa de seleção única está terminando e sendo substituída por algo muito mais rico.
O estudo está publicado no Jornal de Pesquisa em Personalidade.
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